“antes o banheiro era situado em uma roça, feito de saco e forros usados…’

Professora Ieda Ferreira

Essa é uma das frases mais marcantes que a professora Ieda Ferreira que, em uma das muitas escolas do semiárido brasileiro, disse durante esse relato.

Epitácio Pessoa é uma escola localizada no sertão de Pernambuco, especificamente no Sítio Cajarana em Itaíba. Ela foi fundada em 1969 e desde sua fundação a falta de infraestrutura era a realidade que todos conheciam.

“Os professores não tinham um lugar adequado para ensinar e improvisavam salas de aulas, embaixo de árvores, casas de taipa e garagem. É muito difícil trabalhar em uma escola sem água e sem banheiro, não é porque a escola não tem banheiro que a gente não vai ensinar temas como higiene pessoal, mas fica muito mais difícil de trabalhar quando você não tem um exemplo na escola”, contou a professora.

Apenas 42,8% das pré-escolas têm banheiro adequado à educação infantil e somente 60,7% das creches têm banheiro adequado à educação infantil (CENSO ESCOLAR 2018). A educação é diretamente atrelada ao acesso aos serviços de água e esgoto.

Estudo feito pelo Trata Brasil (Benefícios Sociais e Econômicos da Expansão do Saneamento Básico) mostrou que moradores de áreas sem acesso à rede de distribuição de água e de coleta de esgotos têm um aumento do atraso escolar, ou seja, uma escolaridade menor, o que significa uma perda de produtividade e de remuneração das gerações futuras.   

Tendo esse cenário precário como realidade, em 2014, o Instituto Trata Brasil e o Unicef reformaram algumas escolas da região. A maioria delas não possuia instalação sanitária adequada para o uso do alunos e professores.

A comunidade há muito tempo esperava essa reforma para ver seus filhos, alunos, estudarem em uma escola que, além de um bom ensino, oferecesse também uma boa estrutura e poder ser chamada de “segunda casa”. Após a reforma, tudo mudou…

“Tudo melhorou. O trabalho das merendeiras, agora com a cozinha equipada com fogão, geladeira, pia com água encanada. Outra coisa muito importante foi a pia que ficou para que se pudessem lavar as mãos das crianças antes da merenda, pois antes da reforma as mãos eram lavadas com a água no balde e a professora derramava a água nas mãos das crianças com um copinho e iam secando-as para poder merendar”, relata Ieda.

Depois da reforma a escola passou a ter uma sala de aula, uma cozinha, uma dispensa, dois banheiros – um feminino e um masculino que era o mais esperado.

“Uma coisa que marcou muito foi a forma do aluno pedir para usar o banheiro, antes com o banheiro era situado em uma roça, feito de saco e forros usados, a criança dizia: “Professora, vou, licença”. E hoje, graças ao Trata Brasil, o aluno fala: “Professora, posso ir ao banheiro? ”. A diferença é enorme.”

Professora Ieda relata que todos foram beneficiados, a comunidade, os alunos e os professores, além disso ressalta a vontade de mais projetos como esse nas escolas.

“Espero esse trabalho possa continuar em outras escolas para melhorar a vida de outras crianças e levar de certa forma o progresso as mesmas”.

Atualmente o Brasil tem um dos piores índices da América Latina, cerca de 1,6 milhão de moradias no Brasil não tem acesso a um banheiro e que essa desigualdade prejudica vários indicadores socioeconômicos. As fragilidades no sistema são diversas, não é à toa que temos 35 milhões de brasileiros sem a água tratada, mais de 100 milhões sem acesso ao serviço de coleta de esgoto e apenas 46% dos esgotos do país são tratados.

Garantir o serviço de qualidade para todos os cantos do país é fundamental, se os governantes não estabelecerem metas e tratarem o saneamento básico como um prioridade, nunca chegaremos à tal sonhada universalização.

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Acesso ao banheiro nas escolas do sertão

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