O dia 22 de março é conhecido como “Dia Mundial da Água”, estipulada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992 para conscientizar toda a população sobre a importância de preservar esse bem tão valioso.

Para celebrar essa data, todos os dias e em todas as mídias sociais do ITB, iremos trazer novas informações sobre o tema no país.

Já falamos sobre os usos de água, as dificuldades do acesso e distribuição de água no país”, das dificuldades do acesso e distribuição de água, e algumas curiosidades sobre perdas de água, desperdícios e redução de conta,  escassez de água e muito mais.

Aproveitando o gancho, conversamos sobre o futuro do bem mais precioso do país, a água com Samuel Barreto, gerente de água na ONG The Nature Conservacy.

Confira!

Entrevista com Samuel Barreto – TNC

via web

– Qual o papel da TNC no cenário nacional?

O papel da TNC no cenário nacional e internacional é uma instituição global que atua em mais de 100 países. Uma das estratégias que nós temos, é a estratégia de água, que está inserida dentro de uma visão onde a gente entende que é possível criar um ciclo virtuoso entre a presença humana, o desenvolvimento e a conservação. E exatamente a conservação sendo um dos elementos indutores da qualidade de vida e ao mesmo tempo, as pessoas, a população reconhecendo a importância da dinâmica, dos sistemas ambientais e da melhoria da qualidade de vida.

A TNC é uma ONG não confrontacional, que fica focada nas soluções e é uma instituição que a gente diz que é baseada em ciência. No contexto nacional uma das estratégias é de segurança hídrica, inserida numa plataforma global chamada “Fundos de Água na América Latina”, que além da TNC, envolve o Banco Interamericano de Desenvolvimento, Global Environment Facility, o JEF e a Fundação Femsa, que nada mais é uma plataforma coletiva de ação, que visa ter uma intervenção para ampliar e criar segurança hídrica nas cidades por exemplo.

Então, hoje existem mais de 23 projetos na América Latina, no Brasil nós atuamos por meio da “Coalizão Cidades pela Água”, que é uma plataforma de ação coletiva que também mobiliza a iniciativa privada, o poder público e a sociedade civil.

Desde a Coalizão criada em 2015, nós, além de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e a Bacia do Pipiripau, ampliamos o trabalho para Belo Horizonte, na Bacia do Rio das Velhas, do Paraopeba, que abastece Belo Horizonte, a região metropolitana, além do trabalho em Curitiba na Bacia do Alto Iguaçu, tem seis sistemas de produção de água, o principal deles é o Miringuava. E também em Brasília, mudando do Pipiripau que é uma área importante, que abastece duas Cidades Satélites – Sobradinho e Planaltina, para atuar na Bacia do Descoberto.

Nessa do Pipiripau, além do abastecimento de água para duas Cidades Satélites, também é uma área importante de produção de alimento, é um cinturão verde, então, desde o lançamento da coalizão nós alcançamos 32 mil hectares de áreas conservadas, restauradas ou sobre melhores práticas, quase 4 mil famílias serão beneficiadas pelas intervenções a montante, mais de 7 milhões de reais investidos em pagamento por serviços ambientais, onde nós captamos cerca de 26 milhões de reais e com mais de 215 milhões de reais alavancados para promover essas intervenções de restauração, conservação ou melhores práticas.

E além da segurança hídrica, o papel da TNC é é fortalecer a governança de água e a mobilização da sociedade em torno de um assunto que é fundamental para a vida que a proteção e conservação da água.

– Porque a água não foi uma questão prioritária anos atrás (antes da crise)?

É uma boa pergunta! Porque não foi uma questão prioritária anos atrás?

Talvez no Nordeste, mas ainda não ganhou a escala e a prioridade que deveria mesmo lá, no semiárido, mas as pessoas que convivem com essa situação, que estão lá sofrendo no dia-a-dia sabem o valor que cada gota representa na vida dela e para maior parte das pessoas não é um valor, porque de certa forma, também há uma grande desconexão das pessoas que estão nas cidades com os recursos naturais, a luz vem do botão, a água vem da torneira, o leite da Parmalat do supermercado. Então, tem uma desconexão das pessoas com recursos naturais, e bastou até uma crise hídrica em São Paulo para ter esse alerta e uma possibilidade de colapso para que todo mundo ficasse em desespero sem saber o que fazer, e se perguntando se havia ou não um plano B.

 Então, na verdade o que você fala de crise hídrica, nós temos chamado, até desses extremos climáticos que devem ter maior frequência e intensidade daqui para frente segundo o que todos os especialistas têm falado, inclusive do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas, que daqui para frente devemos ter mais extremos climáticos, com maior frequência e maior intensidade.

Isso significa que a gente deve ter fenômenos com maior intensidade de água ou falta de água. Ninguém poderia dizer que Brasília passaria por isso, ou outras regiões, não é um fenômeno isolado aqui no Brasil, mas também é fora do país, na Califórnia, na África do Sul, que se falou até do DIA ZERO em Cape Town, Chile e tantos outros lugares que vem enfrentando essa situação.

De um lado a seca, de outro lado o excesso de água. Então, de um lado da seca, da falta, a gente ainda tem uma cultura da abundância que o Brasil maior reserva hídrica, Aparentemente parece que nunca vai faltar, só que se a gente for olhar, mesmo o Brasil sendo a maior reserva hídrica do planeta, na região onde vive a maior parte da população, nas regiões Sul, Sudeste, Nordeste, nós temos apenas 16% de água disponível, sendo que boa parte dessas fontes estão degradadas ou contaminadas. Lembrando que a própria Mata Atlântica perdeu mais de 90% da sua cobertura florestal, isso por consequência tem impacto direto na quantidade e na qualidade de água

– A universalização do saneamento básico (incluindo a água) está prevista para “2033”. O que você acha que falta na agenda pública para que o objetivo seja atingido?

Falta reorganizar as contas, porque a conta do saneamento é pouco menor do que dois planos safras, então é preciso reorganizar essa arquitetura financeira, porque ao mesmo tempo que se diz que a previsão para 2033, existem outras que falam que é para após 2050, e tem outros cenários que dizem que nesse século não se alcança os investimentos, inclusive tem um decréscimo nos últimos anos da necessidade de mínima daquilo que é necessário investir por ano para que o Brasil consiga superar esse desafio da universalização do saneamento.

Sobretudo, é preciso fazer uma rearquitetura dos investimentos, é ter uma segurança jurídica por que existem algumas outras modalidades como de impacto investimento que poderia ser pensado como uma possibilidade, desde que haja segurança jurídica, e o que é gente vê inclusive com a medida provisória do saneamento ano passado, os desafios para superar essa questão são muito grandes ainda. Até mesmo entre o setor é preciso ter alguma convergência um pouco maior porque essa arquitetura financeira e todo esse ajuste legal para reduzir as inseguranças jurídicas e ao mesmo tempo uma pressão da sociedade.

 É absolutamente fundamental e o desafio que a gente vê na própria agenda política eleitoral do ano passado foi um tema muito pouco abordado diante de um desafio e de uma necessidade tão grande das nossas cidades, das cidades médias, das cidades pequenas, das grandes cidades e como isso tem impactado os diversos usos da água.

– Quais medidas são necessárias para garantir fornecimento seguro e acessível de água para as próximas gerações?

Eu falei um pouco anteriormente, mas esse equilíbrio entre a gestão da oferta e a gestão da demanda é absolutamente fundamental. Por conta do crescimento e do deslocamento da população para novas áreas, tem acontecido um desequilíbrio dessa equação, seja pela necessidade de energia de água ou alimento, e principalmente pela pressão sobre os sistemas naturais que não vem dando conta. As respostas sempre acabam sendo em buscar água mais longe para atender a essas demandas. O problema dessa água mais longe, é que ela tá mais perto de alguém e isso pode gerar um conflito, além de um custo mais alto.

– Como a tecnologia pode ajudar a reverter a escassez de água no Brasil e no mundo?

É importante é ter um investimento no saneamento, ter investimento nas soluções baseadas na natureza, a gente tem mostrado como é possível reduzir os custos pela eficiência do processo, por exemplo, recuperando áreas prioritárias e ao mesmo tempo essas áreas fornecer os serviços ambientais, como a redução de insumos químicos na estação de tratamento, como a gente vem mostrando em Camboriú, em Santa Catarina, onde Inclusive a companhia de água concordou incluir um percentual dos investimentos de conservação na tarifa de água e ao mesmo tempo agência reguladora é autorizando isso.

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O Futuro da água no Brasil

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