Foto: Erdenebayar/Pixabay

Há alguns anos temos pensado com mais frequência sobre os problemas da água em nosso país. Em 2014 vivemos uma escassez hídrica preocupante e que marcou principalmente as regiões Sudeste e Nordeste que são as áreas mais atingidas por diversos fatores, incluindo as perdas de água na rede de distribuição.

As perdas de água fazem conexão direta com a escassez, ao distribuir água para garantir consumo, os sistemas sofrem perdas na distribuição, que de acordo com o Sistema Nacional de Informações Sobre Saneamento (SNIS 2016) na média nacional alcançam 38,1%, número 3,7% superior aos dados apresentados em 2015, essas perdas são consequências, principalmente, de ligações clandestinas, furtos e vazamentos.

Apesar dos indicadores de perdas serem ruins há muito tempo, a escassez de água está dando luz ao tema, o que é muito importante se realmente quisermos dispor de mais água num futuro próximo.

O presidente executivo do Instituto Trata Brasil foi entrevistado sobre o cenário da crise hídrica. Confira na íntegra abaixo:

Entrevista com Édison Carlos sobre Crise hídrica nas regiões metropolitanas

 

– Com chuvas abaixo da média, os dois principais reservatórios estão com seus índices muito baixos. Quais consequências diretas e indiretas que as áreas metropolitanas podem sofrer?

Mais uma vez a região sudeste está passando por um momento com baixo índice de chuva. Os reservatórios, principalmente os reservatórios que são usados para abastecimento da área metropolitana sofrem pela falta de chuva e a consequência disso e se continuar por muito tempo com essa baixa pluviosidade é a restrição novamente do acesso à água pela população, ou seja, o cidadão será chamado a colaborar novamente reduzindo o consumo de água, ao mesmo tempo que se diminui a pressão das redes para poder economizar.

O problema é que normalmente quem sofre primeiro é quem mora mais longe, ou seja, é aquela população mais pobre, das periferias acabam sendo as mais rapidamente atingidas, então, o ideal é que a gente não passe por isso.  Pelo nível dos reservatórios, pelas obras feitas, acredita-se que este ano ainda não haveria problema, mas se continuar, pro ano que vem é muito provável que as consequências sejam as mesmas que a crise anterior.

– Sendo assim, como as cidades podem lidar com a crise hídrica?

Os mecanismos para as cidades lidarem acabam sendo sempre os mesmos, ou seja, pedir para o cidadão economizar uma vez que poucas investiram no controle de perdas, vazamentos e outras fraudes que existem antes da água potável chegar em nossas casas.

No momento de crise, não há muito mais o que fazer a não ser controlar o consumo e as perdas, através da pressão, uma vez que qualquer outra obra demora anos para ser feita, então não dá tempo mais da cidade fazer se ela já não fez, aqui na área metropolitana, a Sabesp investiu no Sistema São Lourenço, na interligação de bacias para poupar um pouco o sistema Cantareira através de um equilíbrio maior da retirada de água de outros reservatórios, mas se a crise estender mesmo a região metropolitana pode vir a sofrer novamente.

– O sistema Cantareira conseguirá se recuperar? Quais as previsões futuras?

O Sistema Cantareira está sendo menos usado agora por conta das obras feitas, mas continua sendo o principal reservatório, mesmo com uma retirada de água menos do Cantareira, a falta de chuva pode comprometer.

É muito difícil fazer previsão, porque mesmo os climatologistas não sabem dizer o que poderia acontecer com relação às chuvas, então isso reforça que nós temos que trabalhar na prevenção, em campanhas mais constantes de baixo uso de água pela população, ao mesmo tempo que a Sabesp e todas as empresas operadoras dos municípios da área metropolitana e da área da região Sudeste deveriam investir no maior uso da água do esgoto já tratado. Essa tecnologia de água de reuso ainda é muito pouco explorada mesmo tendo passado por uma crise hídrica. Então, continuamos buscando água cada vez mais longe e não utilizamos a água que já existe dentro da região metropolitana.

Qual a responsabilidade de toda a sociedade, inclusive das indústrias e do setor de serviços, frente a esta crise hídrica?

Todo mundo tem um pouco de responsabilidade e todo mundo tem lição de casa a fazer, a sociedade, a indústria, o comércio, a agricultura, todo mundo usa a água, portanto, todo mundo tem uma lição de casa a fazer.

A gente fala muito do consumo humano, que o cidadão tem que usar menos água, mas esquece que temos que falar das indústrias, principalmente da agricultura, que é um grade utilizador de água também, então todo mundo tem que reduzir o consumo, mas também cobrar das autoridades que invistam mais pesadamente no tratamento do esgoto, para que a água da cidade melhore e a gente possa usar os rios também como fonte de água e também que se combata as perdas de água potável que são gigantescas no Brasil.

 As pessoas mantiveram as ações de reuso para economia de água nas regiões metropolitanas?

 As pessoas ainda tem uma lembrança da crise hídrica, segundo informações das próprias empresas de água e esgoto, o consumo não voltou mais aos níveis do passado, ou seja, as pessoas continuam economizando, mas logicamente em um grau menos que durante a crise, ou seja, as pessoas vão relaxando na medida que o assunto sai da imprensa, então reforça a necessidade das campanhas de comunicação serem mais permanentes e também, há necessidade da população ficar mais atenta e cobrar providências principalmente em relação à redução das perdas de água potável e o uso maior do tratamento da água tratada para poder usar nas cidades em aplicações menos nobres, e isso ainda é muito pouco usado.

Na sua opinião, o que é possível fazer no curto prazo para mitigar essa crise?

No curto prazo não há muito o que fazer, novamente seremos chamados como cidadãos a reduzir o consumo nas nossas casas, isso é uma coisa que é uma ação de cidadania que nós temos que fazer mesmo constantemente, não só no momento de crise, no momento de crise mais ainda, denunciar fraudes, denunciar rapidamente os vazamentos na rua, e cobrar que o sistema de distribuição de água seja feito com uma gestão mais bem apropriada, se combata os vazamentos nas redes antigas e se combata as fraudes, os furtos, se troquem os hidrômetros antigos para que a medição da água seja mais precisa, isso são ações constantes, no curto prazo são as ações que o Governo do Estado já fez, interligar bacias, construir novos sistemas, e o cidadão economizar mais ainda.

– Pode citar algumas as soluções de destaque que foram encontradas e implementadas em outros lugares do mundo para reverter a situação?

Em outros lugares do mundo, que tem situações hídricas muito complicadas como áreas muito secas, como Israel, Austrália, partes da Espanha, Califórnia, todo mundo usa muito a água que já existe, principalmente o esgoto tratado, se adotam tecnologias de purificação do esgoto já tratado a ponto da água ficar pura o suficiente para ser jogada no manancial que vai ser usado pra água de abastecimento humano, ou muitas vezes até o próprio esgoto é transformado em água potável para poder ser reutilizada.

Então nós temos um grande uso de água de reuso, que vem do tratamento do esgoto, dessalinização de água do mar, enfim, são tecnologias que existem e são muito comuns em cidades que tem baixa pluviosidade, mas que no Brasil ainda caminha a passo de tartaruga. Nós precisamos investir muito nessas tecnologias que já existem e que pra nós ainda são consideradas novas ou muito pouco utilizadas.

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Escassez hídrica ainda é uma ameaça em regiões metropolitanas

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