“…tem a dona Neli, que o sonho dela é poder ligar o chuveiro e poder tomar banho adequadamente…”

É o que diz Andreia Elias, 46 anos, quando fala sobre as pessoas da comunidade ribeirinha em que vive e lidera, em Iguape (SP). Andreia vive com os 2 filhos e com o marido, e além de ser líder comunitária, cuida da família e é pescadora.

Andreia diz que morar lá é muito gostoso, estar perto da natureza é uma alegria, porém, a situação de serviços é precária.

“Morar aqui é muito gostoso, a gente ‘tá’ próximo à natureza e esse tipo de coisas. Mas a situação da gente aqui é de não termos saneamento básico. Onde eu estou ainda temos água, a grande maioria não tem. A dificuldade é que a gente fica doente com frequência, não temos esgoto, a gente tem problemas no pé, problemas de saúde, dá bastante frieira, problemas de fígado, temos uma dificuldade bem grande. O desejo é que a gente tivesse saneamento básico, tivesse água, tivesse esgoto. É um sonho, é uma coisa que se torna praticamente impossível. Parece que a gente nem vive no mundo, parece que a gente tá em um tempo bem passado…”

Assim como diversas comunidades espalhadas pelos Brasil, o bairro de Costeira da Barra em Iguape (SP) é só mais um no meio de milhões que não possuem serviços adequados de água e esgoto.

“…parece que a gente nem vive no mundo, parece que a gente ‘tá’ em um tempo bem passado”.

O bairro abriga 153 famílias, desse total, apenas 24 recebem serviço de água tratada em casa. Segundo depoimento da Andreia, a população é vulnerável e sofre com as doenças, falta de água e falta de coleta e tratamento de esgoto, portanto, a grande maioria utiliza fossa, que consequentemente causa mau cheiro na comunidade.

Além de utilizarem a fossa, muitas famílias precisam se locomover para conseguir água para serviços domésticos e para o trabalho.

“Não só eu como mulher, temos idosas, mulheres deficientes que tem que andar mais ou menos 4 a 5 km para poder pegar um pouco de água em uma garrafa pet para poder levar água para os seus filhos, para o seu esposo que é doente, porque aqui assim, a grande maioria é idoso e deficiente, alguns aposentados. Então, a importância da gente ter um saneamento aqui é a melhoria para essas pessoas, pra gente poder abrir a torneira, poder pegar água pras pessoas poderem tomar banho.”

Andreia citou exemplos de pessoas na comunidade que sonham com a melhoria desse cenário para a população. Dona Amélia, por exemplo, mora na comunidade há 50 anos e até hoje não recebeu os serviços básicos e essenciais para qualidade de vida.

Tem um senhor que tem 72 anos, o sonho dele é abrir a torneira e poder dar água de qualidade para os seus filhos, tem a Dona Laurinda, 81 anos, vive aqui há muito tempo e tem a dona Neli, que o sonho dela é poder ligar o chuveiro e poder tomar banho adequadamente. São coisas que parece que a gente nem vive aqui no Brasil, parece impossível”.

Hoje no país, sabemos que as fragilidades são enormes e cada vez a vontade política diminui, olhar para as populações que habitam em áreas irregulares é fundamental para o crescimento de um país digno. Atualmente temos 35 milhões de brasileiros sem a água tratada, mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso ao serviço de coleta de esgoto e apenas 44% dos esgotos do país são tratados. Andreia tem plena consciência que ela é mais uma das milhões de pessoas desassistidas no país.

“Se os governantes olhassem pra cá não digo nem mais carinho, mas com respeito, porque não precisa ninguém ter carinho pela gente, ou então, gostar da gente sem conhecer, mas que tivesse o mínimo de respeito e pudesse a gente ter saneamento, é um direito nosso, não estamos pedindo favor pra ninguém”.

 Porém, desde 2013 ela luta arduamente para que a comunidade ribeirinha receba os serviços que são direito de toda a população, além da pesca, ela dá curso profissionalizante de panificadora, artesanato e orientação aos jovens que vivem lá.

Andreia é um exemplo a ser seguido.

Nós mulheres temos o privilégio de nascermos mulheres, somos protetoras e cuidadoras, ainda mais que somos líderes e temos que lutar para levar benefícios para nossa comunidade, nossos amigos e vizinhos mesmo sem conhecer. Lutar sempre, ganhar talvez e desistir jamais, esse é o nosso lema”.

Hoje, dia 8 de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Portanto, esta é uma singela homenagem do Instituto Trata Brasil a todas as mulheres que buscam seus direitos e que batalham diariamente para diversas melhorias em toda sociedade!

Feliz dia Internacional da mulher!

 

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No interior, ela é a voz que luta pelo básico

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